Do La Nación e do Blog do Sandro Araújo
O Brasil na vida cotidiana argentina
É o principal destino das exportações e a primeira origem das importações; 82% dos automóveis argentinos vai para lá; a chegada de turistas brasileiros duplicou em 2010; ocupa o quarto lugar como investidor externo e suas empresas dominam em carne, cimento e sapatos.
Por Emilia Subiza – La Nacion – Tradução por Sandro Araújo
Denomina-se “engrenagem” o mecanismo utilizado para transmitir potência de um componente a outro dentro de uma máquina. Praticamente assim funciona dentro do contexto econômico do Mercosul a relação bilateral do Brasil com a Argentina.
Desde as variáveis macroeconômicas e também desde o consumo, o Brasil se faz cada vez mais relevante para a Argentina. Para lá se destinam 21% de todas as exportações, sendo 42% das industriais e se concentra 31% de nossas compras no exterior. O aumento de seu capital ganha cada vez mais relevância; já ocupa o quarto lugar em importância em todos os investidores externos que chegam ao país. O aumento de seus turistas, que duplicou no ano passado, representa um boom em hotéis, restaurantes, comércio e transporte.
“O Brasil é a oitava economia do mundo, está no caminho para ser a sétima e superar a Itália em breve. Não há parte significativa na indústria e serviços da Argentina em que não tenha participação. A relação bilateral se fez muito mais estreita que na década anterior”, diz o economista da Fundación Standard Bank, Raúl Ochoa.
A intensidade da relação não é a mesma em ambos os sentidos. Ochoa adverte que o Brasil está muito mais presente na Argentina, mas não ocorre o mesmo com a presença argentina no Brasil, sem contar a diferença de tamanho. Para eles, nosso país é o terceiro destino em importância tanto de suas exportações como de suas importações, com uma participação muito menor: 9,2% e 8%, respectivamente.
A decisão brasileira de aplicar licenças não-automáticas (LNA) para a importação de certos produtos anunciada há dez dias e que afeta particularmente a indústria automotiva argentina, que destina para lá mais de 80% de suas exportações, somou um novo capítulo de tensão à relação bilateral. Nas semanas anteriores, o governo de Dilma Rousseff havia se queixado ante as autoridades argentinas pela demora de mais de 60 dias – prazo estabelecido pela Organização Mundial de Comércio – para autorizar o ingresso de produtos brasileiros que desde fevereiro entraram no sistema de LNA.
A onipresença do Brasil também se sente nas gôndolas alvicelestes, seja por importação de produtos ou pela fabricação local graças ao seu investimento estrangeiro.
Cerca de 70% dos hambúrgueres que se comem na Argentina têm sua origem em capitais brasileiros, de acordo com a consultora de mercado CCR. Fabián Uranga, analista, conta que a Quickfood, que processa as tradicionais Paty (propriedade da brasileira Marfrig), é lider de mercado com 60% de participação, ao que se soma a porção de Swift (adquirida pela JBS-Friboi).
Marcas de calçados como Topper, Alpargatas e Flecha também respondem ao investimento de nossos vizinhos. A holding Camargo Correa controla hoje a Alpargatas, que produz estas três marcas.
“Os brasileiros fizeram grandes investimentos no mercado calçadista nos últimos quatro anos. Cerca de 35% do calçado desportivo que se consome é feito no país, e 30% com capitais brasileiros”, conta o presidente da Cámara Industrial del Calzado (CIC), Alberto Sellaro.
Entre as operações, menciona que a firma Vulcabrás adquiriu em 2007 uma planta na localidade bonaerense de Coronel Suáres, onde atualmente trabalham 4.300 empregados e produzem diariamente 10.000 pares de sapatos com as marcas Reebok e Olimpikus. Enquanto isto, a Paquetá radicou-se em Chivilcoy e é o principal fabricante de Adidas. Trabalham 12.000 empregados e fazem 8.000 pares de calçados por dia.
Além de calçados esportivos, sandálias são outro dos fortes do Brasil. Mal se concretizou o anúncio de produção local das mundialmente conhecidas Havaianas, o presidente da CIC calcula que no ano passado foram importados 1,3 milhões de pares. A marca que já começou a produzir em Coronel Suáres é Grendha.
Quase metade do cimento que se consome na Argentina também tem raízes brasileiras. É o principal negócio de Camargo Correa, que aqui controla a Loma Negra. A aquisição da empresa argentina foi o primeiro passo na internacionalização do grupo. Juan Roza, gerente de Assuntos Corporativos, conta que a empresa tem nove plantas e emprega quase 2.000 pessoas.
Em eletrodomésticos, a presença do Brasil está em retrocesso graças à política de licenças de importação aplicada pelo governo argentino. No revendedor Frávega contaram que a quantidade de produtos brasileiros nos segmentos de lavadouras de roupas, cozinha e geladeiras caiu de 40% para 20% nos últimos anos.
“Este ano não entrou nada brasileiro porque não se autorizaram as importações. O que resta é o estoque, que está acabando. Não faltam produtos mas sim variedade e alta qualidade, como as geladeiras de duas portas”, comenta uma fonte da empresa. A famosa batedora Minipimer, muito utilizada pelas mães argentinas com filhos pequenos, está desaparecida das gôndolas. É fabricada no Brasil pela Braun e apesar de uma empresa argentina ter começado a desenvolver uma versão local, ainda não está disponível.
Maurício Claverí, analista da consultoria Abeceb.com, destaca que os investimentos do Brasil na Argentina cresceram fortemente, sobretudo na área industrial. “A Argentina é um mercado muito relevante para o Brasil pois é o primeiro passo para a internacionalização de suas empresas e para ganhar competitividade. A Argentina é o maior mercado dentro de sua área de influência”, explica.
Na siderurgia, a Sipar Gerdau, cuja planta está em Pérez, próxima de Rosário, produz anualmente 260.000 toneladas de laminados entre barras, bobinas, rolos, fios e pregos, entre outros. O Grupo Gerdau é o 14º maior produtor de aço do mundo e seu presidente, Jorge Gerdau, ocupa agora um cargo no gabinete de Dilma Rousseff.
Cerca de 755 caixas automáticos na Argentina pertencem a bancos de capitais brasileiros, enquanto o maior banco da Argentina, o Banco Nación, tem 944. Em 2010 o Banco do Brasil selou um acordo para compra de 51% das ações do Banco Patagonia, em uma operação de 479 milhões de dólares que foi concretizada dias atrás. O Banco Itaú, seu competidor, chegou já faz mais de uma década.
Em energia também há presença do Brasil, ainda que tenha reduzido depois que Petrobrás cedeu 346 postos e uma refinaria à Oil, do empresário Cristóbal López. Segundo dados do mercado, na Argentina existem 4.400 postos de combustível e o domínio da Petrobrás agora é de pouco mais de 5 porcento.
O boom turístico
A invasão de turistas é um fenômeno facilmente observável na rua Florida, nos shoppings e nas caras churrascarias de Puerto Madero, onde vão desfrutar da tradicional picanha. A partir do próximo mês também nos centros de neve, especialmente Bariloche, que já foi batizado “Brasiloche”.
Em 2010 chegaram à Argentina 2,6 milhões de turistas. Destes, 863.492 foram brasileiros, mais que o dobro de 2009, de acordo com dados da Indec.
“Explodiu a demanda de turistas. Cerca de 70% da ocupação dos vôos da TAM são brasileiros que vêm à Argentina e os demais 30% são argentinos que vão ao Brasil”, disse Francisco Chiari, gerente geral da TAM Linhas Aéreas na Argentina. A empresa tem 18 vôos diários ao Brasil.
Chiari conta que há dois anos foi alcançado o limite de frequências autorizadas entre ambos países, segundo um acordo bilateral de seus governos. Como o pedido de elevar a quantidade de vôos ainda não prosperou, a TAM mudou seus aviões para estas rotas de A320 para A330, aumentando assim sua capacidade de transporte de 150 para 224 passageiros por viagem.
O economista da Fundación Standard Bank opina: “Há um fenômeno relativamente novo, que é a enorme quantidade de turistas brasileiros que vêm e que têm um impacto muito forte na economia”. E cita como evidência cifras da Organização Mundial do Comércio (OMC), segundo os quais o Brasil mantém um déficit em sua balança de serviços de 30 bilhões de dólares, apesar de que para a Argentina seja de apenas 100 milhões. “É pelo importante aporte dos turistas do Brasil, que representa praticamente a metade do gasto turístico na Argentina”, complementa.